Breve História dos Estudos Brasileiros


O estudioso estrangeiro de temas brasileiros, usualmente conhecido como ‘brasilianista’, exerceu um papel importante no surgimento das Ciências Socias no Brasil durante a segunda metade do século XX. É provavel que o fundador e líder deste movimento tenha sido o historiador inglês Robert Southey. Este observador atento do imperio colonial português – que precedeu aos estudos ainda mais abrangentes de Charles Boxer – escreveu, durante o período da independência, a “História do Brasil”, a e única referência na disciplina até o aparecimento do primeiro historiador verdadeiramente nacional, o diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen. Durante o século XIX, a “espécie brasilianista” contou com muitos outros representantes, entre os quais os pesquisadores  alemães Von Humboldt, Von Martius, que elaboraram as primeiras diretrizes sobre “como escrever a história do Brasil”. Outro brasilianista, e Handelmann, assim como o Southley, nunca estivera no Brasil. Foram também brasilianistas o suiço Louis Agassiz, os franceses Gobineau e Louis County, e Louis County, da França.

Francisco de VarnhagenAlexander von Humboldt
Francisco Adolfo de VarnhagenAlexander von Humbolt

Apesar desses antepassados ilustres, o termo brasilianista surgiu bem mais tarde, na época da Guerra Fria, quando havia a preocupação imperialista quanto a uma possível desestabilização do maior país da América do Sul.  O termo “brasilianista” teria sido utilizado pela primeira vez no Brasil em 1969, pelo acadêmico Francisco de Assis Barbosa, ao qualificar um especialista estrangeiro nos assuntos brasileiros. Tal conceito foi aplicado ao historiador norte-americano Thomas Elliot Skidmore no prefácio da edição brasileira de seu livro Política no Brasil (1967).

O interesse pelo Brasil cresceu de forma exponencial nos Estados Unidos durante a transição entre as administrações de Eisenhower e Kennedy e se revelou tanto na busca de candidatos especializados em temas brasileiros como também de novas fontes de informação sobre a realidade brasileira. Exemplo da manifestação de interesse pelo País foi a publicação, elaborada por Robert Levine, do primeiro guia de pesquisas que identificava as características do “laboratório brasileiro”: Brasil: Guia de pesquisas de campo nas Ciências Sociais (1966). Além disso, houve um significativo crescimento, nos Estados Unidos, da tradução e publicação de textos brasileiros na área das ciências sociais. Diversos trabalhos de estudiosos brasileiros foram traduzidos e publicados, entre os quais Gilberto Freyre, Celso Furtado, José Honório Rodrigues, Jose Maria Bello, Caio Prado Jr.

Field Guide to BrazilFormação do Brasil ContemporaneoCasa-Grande e Senzala

Uma das fases áureas do brasilianismo americano ocorreu entre o final da década de 60 e meados de 1970, quando o Brasil enfrentou uma de suas fases políticas mais contundentes. Naquela época, muitos intelectuais foram condenados ao exílio e submetidos à repressão do governo. Vários autores, entre os quais se destacam Ronald Schneider, Alfred Stepan e Philip Schmitter,  dedicaram suas pesquisas ao regime autoritário e as suas formas de funcionamento. Algumas pesquisas deram mais ênfase a estudos sobre grupos sociais ou religiosos, de que são exemplos os trabalhos de Skidmore e Ralph Della Cava.
Alfred Stepan
Alfred Stepan

Outra vertente de estudos concentrou-se no tema das “exportações” de ideias e teorias do Brasil para os Estados Unidos. O exemplo mais evidente foi representado principalmente na “Teoria da Dependência” – sobretudo representado no trabalho de Fernando Henrique Cardoso – que apresenta uma visão crítica do pensamento sociológico americano em relação aos problemas de países em desenvolvimento, particularmente aquelas da América Latina.
Fernando Henrique Cardoso
Fernando Henrique Cardoso

A partir da década de 1980, surge uma nova geraçao de brasilianistas, com foco temático em determinado setor ou em uma gama variada de temas, tais como questões de gênero, meio ambiente, raça, diáspora africana, imigração, e  etc. Destacam-se nesse grupo Steven Topik, Roderick Barman, Marshall Eakin, Joseph Smith, Sandra Graham, Thomas Holloway, Jeffrey Lesser, Barbara Weinstein,  e James Green, entre outros. Vários brasilianistas desta geração participaram ativamente na criação da BRASA e fizeram ou fazem parte de seu comitê executivo.
BrazilBrazil.2

O brasilianista contemporâneo não mais dispõe, como seu “antecessor” dos anos 1960 e 1970, de um espaço especial no cenário das ciências sociais brasileiras, pois parece ter-se emancipado da tutela estrangeira e das “importações metodológicas”. Por essa razão, o relacionamento intelectual  entre os Estados Unidos e Brasil vem sendo feito de forma mais equânime. Mais recentemente, alguns temas de estudo tornaram-se comuns entre estudiosos brasileiros e americanos, o que revela um mais do que bem-vindo intercâmbio intelectual entre os dois países. A alta participação de intelectuais brasileiros em congressos internacionais sobre temas brasileiros e a ampla publicação acadêmica por parte de brasileiros atestam esse relacionamento bilateral benéfico.  Atualmente, mais de 40% dos membros da BRASA são brasileiros.

Alguns fatos interessantes:

Expedição Rondon Roosevelt

  • Em 2014, comemorou-se o Centenário da Expedição de Theodore Roosevelt e Marechal Cândido Rondon à Bacia Amazônica.
  • Durante o verão de 1970, no Rio de Janeiro, o economista Werner Baer da Universidade de Illinois e o cientista político Riordan Roett da Escola de Estudos Internacionais John Hopkins foram sequestrados por agentes do regime militar. Não obstante receberam, em 2000, das mãos do Embaixador Rubens Antonio Barbosa, a Ordem do Cruzeiro do Sul.
  • O pesquisador Charles Wagley teria sido a inspiração de Jorge Amado para o personagem James Levenson em Tenda dos Milagres

Jorge AmadoCharles Wagley

Fonte: Almeida, Paulo Roberto de. Eakin, Marshall C.. Barbosa, Rubens Antonio. O Brasil dos Brasilianistas: um guia dos estudos sobre o Brasil nos Estados Unidos, 1945-2000. São Paulo: Paz e Terra, 2002.